Trabalhos de estudantes da ECT são premiados em evento sobre propriedade intelectual

Durante o IV Encontro Nacional de Propriedade Intelectual (ENPI), que aconteceu entre os dias 10 e 12 deste mês, na cidade de Juazeiro, na Bahia, dois trabalhos realizados por estudantes e professores da Escola de Ciências e Tecnologia (ECT) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) foram premiados por sua excelência.

O primeiro, com o título “Estratégias de impulsionamento para a indústria de transformação no município de Macaíba RN – Potencialidade e desafios”, desenvolvido por Luis Alonso, Rayane Câmara e Zulmara Carvalho é um spin-off, ou seja, um trabalho derivado de outro, produzido durante a disciplina da grade curricular obrigatória do curso de Ciências e Tecnologia (C&T), Gestão e Economia da Ciência, Tecnologia e Inovação (GECTI), no semestre passado.

O trabalho, premiado na categoria banner, da área de gestão da inovação e empreendedorismo, discorre sobre arranjos institucionais e organizacionais estratégicos para impulsionar setores econômicos estagnados. Em específico, sobre estratégias para conter a estagnação da indústria de transformação nacional, estabelecida pelos reflexos da crise econômica do país. Nessa direção, foram investigadas duas abordagens: a da tríplice hélice (3H), que envolve a conectividade e interatividade entre universidades, empresas e setores governamentais, e a da quádrupla hélice (4H), que adiciona a sociedade como agente ativo de desenvolvimento socioeconômico, por meio dos Living Labs. Luis Alonso cita que, com a co-criação cidadã, que até então se configura um agente passivo, que apenas consome o que é produzido, é possível melhorar produtos, pois quem os utiliza diariamente possui mais propriedade para apontar seus pontos negativos e positivos. É dentro dessa iniciativa que está um dos conceitos que caracterizam os Living Labs. A análise do estudo evidencia a demanda de leis municipais de inovação para a criação e operacionalização do ecossistema de inovação local, dentro da abordagem 4H.

O objeto de análise do trabalho foi o desenvolvimento socioeconômico do município de Macaíba-RN. Além da avaliação do sistema local de inovação, da trajetória histórica da industrialização da região, orientada pela descentralização industrial dos anos 1990, bem como seus reflexos no cenário atual, foram feitos dois estudos de caso. Na cidade alemã Baden-Wüttermberg e na cidade portuguesa São João da Madeira, na abordagem 3H e 4H, respectivamente. Ambos países enfrentaram os reflexos da crise econômica de 2008, a partir de seus ecossistemas de inovação. Da análise da pesquisa, sobressaiu-se a recuperação da economia portuguesa, a partir de um cenário de acentuada fragilidade econômica, o que deu alicerce para a hipótese apresentada.

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Felipe Zumba (à esquerda), Zulmara Carvalho e Luis Alonso.

O segundo, com o título “Da ciência aos negócios tecnológicos – O cenário da incubação de empresas, propriedade intelectual e transferência de tecnologia da UFRN”, desenvolvido por Felipe Zumba, Heitor Marcelino, Zulmara Carvalho e Gláucio Brandão recebeu a premiação na categoria de apresentação oral, da área de propriedade intelectual e transferência de tecnologia.

Felipe Zumba, mestrando do Programa de Pós-graduação em Ciência Tecnologia e Inovação (PPgCTI), explica que o grande problema do Brasil hoje é que se tem universidades que produzem ciência e tecnologia de ponta, no entanto, essa produção não é aproveitada na economia. Nessa direção, o trabalho objetivou avaliar o cenário de transbordamento da produção acadêmica da UFRN, no mercado. Com essa meta, foram investigados o cenário de incubação de empresas, o de registro de patentes e o de contratos de licenciamento da instituição.

No estudo, é feito um contraponto entre a UFRN com as três universidades mais inovadoras do país: Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o objetivo de medir os incentivos regionais a pesquisa e desenvolvimento, que afetam diretamente na quantidade de empresas buscando parcerias com as instituições.

Segundo Felipe, em São Paulo foram investidos 4,6 bilhões de reais por ano em pesquisa e desenvolvimento; em Minas Gerais 168 milhões, enquanto que o Rio Grande do Norte investiu aproximadamente 16 milhões nos últimos 15 anos. A diferença de incentivo financeiro se mostra significativa e pode explicar parte da fragilidade de transbordamento da produção acadêmica no mercado. Embora a UFRN se figure no top 25 das melhores universidades do país, de acordo com o Webometrics Ranking of World Universities, os índices de propriedade intelectual e transferência de tecnologia são modestos, quando comparados com as referências do ranking de universidades inovadoras.

A solução proposta para fazer com que a ciência e a tecnologia transbordem na economia é a intensificação do incentivo centrado na criação de empresas da instituição para entrar no mercado, através do processo de incubação. Após a regulamentação do Programa de Incubação de Empresas da UFRN (2013), as unidades acadêmicas podem submeter projetos de criação de incubadoras. Atualmente, a instituição conta com 5 iniciativas.

Além dos dois trabalhos premiados, foram apresentados no evento outros quatro da lavra da ECT, destacando o desenvolvido por Allan Miranda, Uderlan Rodrigues, com os professores Carlos Alexandre Abreu, Efrain Pantaleón e Zulmara Carvalho: “A Inovação é Pop!” (que já foi tema de uma reportagem anteriormente), cujos resultados obtidos foram semelhantes ao de um projeto desenvolvido no Japão e aplicado em escolas em Pernambuco (também exibido no ENPI): quando o quesito é inovação, os estudantes se adaptam com mais facilidade ao conteúdo enquanto os gestores dessas instituições demostram resistência às mudanças.

Os outros três trabalhos também são spin-offs de GECTI: “Os Desafios da Mobilidade Urbana Brasileira na Agenda das Cidades Inteligentes” de Rayane Câmara, Luis Alonso, Heitor Marcelino e Jefferson Lira; “Arranjo Organizacional e Institucional Estratégico para o Desenvolvimento Socioeconômico Sustentável – A Indústria do Turismo em Janduís-RN” de Lenise Andrade, José Carlos dos Santos, Jefferson Lira e Felipe Zumba; e “Difusão da Cultura Maker como Estratégia de Desenvolvimento Socioeconômico – O Caso de João Câmara-RN” de Leandro Rodrigues e Rayane Câmara. As produções citadas tiveram a orientação da professora Zulmara Carvalho.

O ENPI é organizado pela Associação de Propriedade Intelectual (API) itinerante, acontece todos os anos e em 2020 será realizado em Natal, na ECT.

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Grupo que apresentou os seis trabalhos no evento.

O ecossistema de Negócios Tecnológicos

 

O ecossistema de Negócios Tecnológicos (NegTec) tem sua parte de ensino ancorada na ECT em duas frentes: na graduação, por meio da ênfase em Negócios Tecnológicos e na pós-graduação, por meio do PPgCTI, que atualmente possui curso de mestrado profissional e especialização em indústria 4.0. Porém, os trabalhos sobre a interdependência entre ciência, tecnologia e inovação começam ainda na parte curricular básica de C&T, por meio da disciplina Metodologia Científica e Tecnológica e, a já citada anteriormente, GECTI.

Para maximizar os processos de ensino-aprendizagem dos estudantes de GECTI, a professora Zulmara Carvalho iniciou um projeto piloto baseado em pesquisa, no primeiro semestre de 2017, que posteriormente foi aderido pelos professores Carlos Alexandre Abreu e Efrain Panteleón. O resultado foi um ciclo de estudos com apresentação de mais de 100 trabalhos no Simpósio Internacional de Negócios Tecnológicos (ISTB, da sigla em inglês), que foi realizado no segundo semestre do ano passado na Escola de Ciências e Tecnologia.

O que os dois trabalhos premiados têm em comum é o envolvimento dos seus autores nesse ecossistema: os graduandos de C&T envolvidos são, atualmente, monitores da disciplina de GECTI e Felipe Zumba, que além de ser mestrando do PPgCTI, é professor substituto de GECTI. O interesse de todos pela inovação surgiu na disciplina da grade curricular obrigatória de C&T e hoje, integrando o ecossistema de Negócios Tecnológicos da ECT, os discentes dão continuidade as atividades iniciadas, incentivando e orientando outros estudantes a produzir conhecimento.

“O mais importante, para mim, é difundir, popularizar o conceito de inovação em todos os estudantes”, disse Zulmara Carvalho. “O que mais buscamos é o desenvolvimento socioeconômico do Estado”.

*Fotos cedidas por Luis Alonso

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